Caldeirão caiçara

Não, este texto não se trata da deliciosa culinária caiçara local (porém, fica a dica, vale a pena fazer um passeio culinário do sul ao norte de Ubatuba percorrendo muitas praias de comunidades de pescadores de verdadeira tradição caiçara, com pratos e quitutes maravilhosos) mas sim da misturas culturais que caracterizam as diversas comunidades tradicionais que teceram, de fato, a história e a cultura local ubatubense.

A miscigenação cultural de Ubatuba é um reflexo da construção da identidade brasileira, sendo o nativo caiçara um típico representante da cidade, mesmo nesses tempos mais “rápidos”.
Mas, não era um habitante original. Terra com uma história riquíssima pré-Cabral, com sambaquis feitos por antigos povos caçadores/coletores que se instalaram por muito tempo nessa região costeira do litoral brasileiro, até a chegada de povos vindos do norte, guerreiros, caçadores e agricultores com uma organização social complexa, os verdadeiros Tupis, que deram origem aos Tupinambás, habitando, num sistema de aldeias e cacicados, quase toda costa brasileira (dois grandes trechos do litoral brasileiro.

Após a chegada dos portugueses e franceses, disputando território com os mesmos métodos de cooptar tribos diferentes para desestabilizar as parcerias indígenas em guerra com o inimigo (variando entre franceses e portugueses, de acordo com as organizações indígenas de diferentes etnias), utilizando guerreiros indígenas nas linhas de frente, os colonizadores perceberam que os povos originais do Brasil não iriam aceitar a escravidão.

Depois da Confederação dos Tamoios (reunião de todas as aldeias tupinambás, do Vale do Paraíba -SP até o Cabo de São Tomé - RJ, com um imenso exército tupinambá, reunido contra a colonização portuguesa e sua prática de escravizar indígenas), que culminou com a Paz de Iperoig, atual Ubatuba, selando o primeiro tratado de paz das Américas entre indígenas e colonizadores, ato que apaziguou a mobilização tupinambá e encaminhando-os ao seu aniquilamento, pois os tupinambás da Baía de Guanabara se aliaram novamente aos franceses, ainda em guerra com os portugueses pela disputa deste território.

Uma nação inteira desapareceu à partir deste posicionamento, ao qual os portugueses consideraram uma afronta, tirante indivíduos e pequenos grupos que fugiram floresta adentro, se misturando em tribos de outras etnias e até mesmo nas vilas colonas, como veio a ser o povoado de Ubatuba, fundada de fato pelos colonos como Vila da Exaltação de Santa Cruz de Ubatuba, em 1637.

A miscigenação forçada por um lado (colonização e escravidão) e natural por outro (a capacidade de adaptação humana), formou o indivíduo caiçara local com uma cultura típica da região, marcada por altos e baixos econômicos e históricos, permeada com o isolamento do local nos tempos mais escassos, o que formou uma cultura de pesca e subsistência agrícola, com reflexos de tradições indígenas, africanas (muitos quilombos surgiram no litoral paulista) e ocidentais em todos os âmbitos sociais e culturais destas comunidades caiçaras.

Hoje, o modo de vida caiçara se adapta aos novos rumos econômicos e industriais, com a pesca predatória de grandes indústrias pesqueiras (e ilegais, pois não respeitam os ciclos dos animais capturados em mar), tornando quase insustentável a pesca artesanal local. Ao mesmo tempo, inúmeras comunidades caiçaras da região se fortalecem em associações de bairro ou de pesca, cooperativas locais e, com isso, fortalecem suas festas, culinária e mantém intacto seu amor ao mar.