Desafios naturais e institucionais decorrentes das chuvas nas comunidades

As mudanças climáticas, que aparentemente decorrem do aquecimento global resultante das atividades humanas, ainda trazem a tona diversas polêmicas teóricas.

Porém, para os observadores locais, nativos que vivem de suas práticas culturais de subsistência dos diversos biomas preservados do Brasil, como os griôs mais velhos dos quilombos, o caiçara que aprendeu a ler o mar desde criança, os anciões das aldeias que trabalham na terra e tiram da natureza seu sustento, agentes culturais de seus povos, demonstram grande preocupação com o tema, pois em suas observações cotidianas, baseada no conhecimento tradicional empírico, dizem que o clima está diferente sim, mais imprevisível.

No caso da região em que se encontra o município de Ubatuba, bioma de Mata Atlântica cercada pela Serra do Mar, em meio a um complexo conjunto de ecossistemas, as observações empíricas destes habitantes locais das comunidades tradicionais se mostram reticentes para explicar as variações climáticas locais atuais, os ciclos naturais de fauna, flora, plantios, pesca, etc, devido a estas oscilações.

2015 foi mais um desses anos atípicos do clima “clássico” de Ubatuba, onde tivemos um verão seco (época do ano que tradicionalmente chove bastante, e que por suas consequências, apelidou gentilmente a cidade de Ubachuva) e por sua vez, no meio do inverno, época mais seca do ano, uma temporada sem fim de chuvas e mais chuvas, emendando no verão de 2016 (quem sabe agora o clima de uma equilibrada).

O problema é que a cidade, que tem uma geografia comprida e estreita onde existem regiões de beira mar e sertões, com inúmeros bairros localizados acima do nível do mar, geralmente com acesso de estradas de terra (como é o caso da estrada de acesso ao sertão do Prumirim, onde se localiza a Aldeia Boa Vista, assim como a estrada da Fazenda, onde fica o Quilombo da Fazenda), que já ficam bem ruins com as chuvas normais.

Os problemas de acesso nessas estradas, decorrentes das fortes e constantes chuvas desta temporada, tornaram impraticáveis várias atividades destas comunidades, impedindo o acesso de transportes maiores como caminhões de médio porte, atrapalhando os ritmos internos destas comunidades, como o impedimento da chegada dos materiais escolares previstos, atrapalhando o manejo do lixo desses bairros, atrapalhando a chegada de grupos turísticos nas semanas de chuvas mais intensas, impedindo o acesso dos quitandeiros locais que são parceiros das comunidades, entre outras questões básicas.

A prefeitura municipal de Ubatuba firmou compromisso com estas comunidades, de passar o trator uma vez por mês nessas estradas, porém, das cinco máquinas utilizadas para este fim, apenas uma esta em funcionamento, o que impossibilita o cumprimento dos prazos firmados neste momento.

De qualquer modo, as chuvas de Cunhambebe (lenda urbana local que atribuí a este chefe tupinambá histórico e suas maldições, as chuvas intermitentes da cidade, principalmente nos finais de semana) aparentam, com a proximidade do outono, uma acalmada no clima local, que ao que tudo indica, está “calibrado” novamente.