Lenda ubatubana

A cidade de Ubatuba, além de belezas sem fim de natureza única e de sua riqueza histórica e cultural, possuí um grande arcabouço de lendas e mistérios, cultivadas ao longo do tempo por caiçaras, povos quilombolas remanescentes de escravos e índios, que aqui viveram e aqui vivem. As lendas mais comuns são as contadas pelos caiçaras, descendentes de europeus, africanos e indígenas tupinambás, povo que ainda vive, (uma cultura que luta para sobreviver à indústria de pesca predatória) diretamente da pesca e da agricultura de subsistência e de pequenos escambos e trabalhos coletivos, até a pouco tempo atrás.
Apesar dos tempos atuais não permitirem mais o modo de vida caiçara "barriga verde" de antigamente, a cultura caiçara está longe de acabar, sendo que os descendentes destes, se não são todos pescadores de fato como seus antepassados, ainda mantém vivas muitas das tradições caiçaras, seja pelas festas tradicionais, pescas coletivas, multirões comunitários, história oral, corridas de canoas, nas quais, muitas lendas ainda vivem no imaginário coletivo local…
Vejamos a principal delas:

A gruta que chora

Essa lenda tem muitas variações locais, mas a mais conhecida remete à época em que aqui viviam os temidos Tupinambas, que tinha em Coaquira seu chefe local, além da vizinha Yperoig e, mais ao norte, num território que compreendia de Yperoig até a Baia de Guanabara, no Rio de Janeiro, sob os dominios de seu aliado e grande lider Tupinambá, Cunhambebe.

Os Tupinambás da região estavam em conflito com os portugueses desde a chegada e estabelecimento destes em Bertioga, na Vila de São Vicente. Os portugueses vinham esporadicamente guerrear com os Tupinambás e capturar suas mulheres, tentando de todo modo catequizar e escravizar esta nação indígena, povo reconhecidamente guerreiro. Porém, este não era o unico martírio dos Tupinambás locais: os pajés diziam que Tupã estava bravo com os seus, e enviara um monstro, uma "cobra grande", que chispava fogo pelas ventanas e era imensa, de natureza sobrenatural que veio do mar, causando grandes ondas e que se instalara no costão da Pindobussu. Destruindo o paredão com fogo e com sua força, abriu uma gruta e se adentrou nela, com um grande estrondo, que fez os indíos correrem para praia gritando - cinynga!

Caoaquira morava nas ocas da varzea da Sununga (que era praticamente virgem aos pés dos homens brancos), e tinha uma filha chamada Potira, que estava para casar em breve com Jagoanháro, jovem guerreiro que, um dia, sucederia Coaquira na liderança local.

Assim, o flagelo do dragão, ou da "cobra grande", atingia a aldeia de Coaquira, de modo que, uma vez, sumia uma jovem da aldeia, deixando apenas um longo rastro que levava até a gruta.
Ao mesmo tempo, corria nas aldeias a informação de que caçadores portugueses aprisionaram novamente diversas cunhatãs jovens indígenas, fazendo os trocanos (espécie de tambor guerreiro dos índios, feito de uma tora inteira de madeira, escavado a fogo, de dois a três metros de comprimento, usado para transmissão de notícias entre as diversas aldeias indígenas de algumas tribos brasileiras) soarem de aldeia em aldeia, passando por ocas intermediárias, a batida da guerra. Lideranças reuniam as tribos para um movimento militar organizado dos Tupinambás de toda a costa contra os os portugueses de Bertioga, trazendo ainda mais preocupações ao lider Coaquira.

Assim, eis que surgem, de uma manobra desesperada dos portugueses, que em número muito inferior aos Tupinambás (que com a Confederação dos Tamoios mobilizaram um grande exército indígena), dois padres portugueses com a promessa de paz, fazendo-os crer que os fatos que mobilizaram os índios tinham sido na verdade causados pelos franceses, que se fizeram de amigos (coaraciaras), mas na realidade queriam causar tensão e desinformação dos intuitos portugueses com os Tupinambás. Os padres desembarcaram na aldeia de Yperoig, onde os Tupinambás da região se reuniam aos poucos para o desenrolar desta aliança, muito mal quista pelos pajés, de mesmo assim, também se dirigiam para lá. Após firmado o tratado de paz, os padres tentaram convencer que seu deus era superior a Tupã, e que poderiam ensinar-lhes suas palavras. Os pajés então propuseram aos padres que provassem a grandeza de seu deus com a "cobra grande" da Sununga em sua volta à Bertioga.

Ao mesmo tempo, desolado com os rumos tomados ainda em meio aos planos e mobilizacões contra os portugueses, Coaquira viu seu pesadelo se confirmar ao chegar a lua cheia, com o sumiço de Potira. Chamou seus melhores guerreiros e partiu, junto a Jagoanháro para sua aldeia e, ao chegarem ainda sob a luz do luar que iluminava o rastro do monstro até a entrada da gruta, seu genro seguiu adentro, desesperado. Ninguem conseguiu conte-lo, nem Coaquira, nem os pajés com seus maracás dizendo para todos se afastarem da gruta para não sofrerem maiores males, porém, Jagoanháro não quis saber e entrou. Seguiu-se um silêncio que foi rasgado por um grito assustador e um ronco ainda mais tenebroso, para, enfim, uma quietude mortal.

Pindobussú, liderança Tupinambá e pai de Jagoanháro jurou vingança ao saber da morte de seu filho, assassinado e devorado pela "cobra grande". Em sua fúria, deu ordens para uma imensa expedição de canoas para matar a serpente gigante, quando o pajé veio lembra-lhe dos padres e de seu deus poderoso, o que ficou firmado na seguinte sentença: se os padres se recusassem, virariam um banquete antropofágico, o que não aconteceu, pois os padres cumpriram com a palavra de botar seu deus à prova, dirigindo-se ao local, sem maiores opções.

Todos os mesmbros da aldeia de Coaquira já se encontravam próximos a praia para ver o que se passaria em alguns instantes, num misto de medo, raiva e curiosidade. Assim, ao que os dois padres chegaram, acompanhados dos Tupinambás de Yperoig, um deles começou a chamar o monstro em nome de deus, que apareceu das profundezas da gruta fumegante, inclinando sua cabeça imensa sobre o corpo do pequeno homem, que logo foi procedido pelo outro padre, abaixando o corpo do amigo que quase perde sua vida, e, arrancando seu crucifixo do peito e elevando acima de sua cabeça, sumiu sob a fumaça intensa e o cheiro de enxofre, reaparecendo logo depois, imóvel, com o monstro se contorcendo tanto que destruiu em um estrondo a grande abertura da gruta, fechando sua garganta para, fumegando, fugir em direção a agua para nunca mais ser visto. Em meio a poeira do deslizamento das rochas da parte interna da gruta, Caquira gritava o nome de sua filha, na certeza de que nunca mais a encontraria, Ao berrar - Potira! - repetidamente na entrada que sobrou da gruta, Coaquira caiu, de joelhos, chorando desesperadamente, quando, aos olhos de todos os presentes, a gruta começa a verter lágrimas copiosas junto ao grande chefe, como se fossem as lágrima de sua própria filha aprisionada por encanto na gruta, na qual ele sabia: tudo logo chegaria ao fim.

Jorge Miguez Cavalcante